CRUZEIRO HISTÓRICO
PELOS ESPAÇOS DE VIEIRA

DIÁRIO DE BORDO

 

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1 de Março de 2008, Peniche.

Peniche é a última escala deste Cruzeiro Histórico pelo espaço Atlântico das viagens de Vieira; foi o lugar de chegada da sua primeira missão, que mudaria o rumo da sua vida. Quando ele tinha entre dezoito e vinte e um anos viajou de barco de Salvador até Recife e retorno, provavelmente numa embarcação da própria Companhia de Jesus, que dispunha de meios de transporte próprios na colónia. Não era propriamente um novato em termos de viagens marítimas, pois já contava uma primeira travessia do oceano, pelos sete anos de idade, quando emigrou para a colónia do Brasil.

Faltam poucos dias para que Dietmar e eu completemos um ano completo de vida a bordo do CHIC. Nenhum de nós é um novato nestas andanças marítimas, mas o oceano é sempre um desafio imprevisível, mesmo para os mais experientes. O último cais desta viagem está a cerca de 80 milhas, porém os perigos do oceano são sempre os mesmos, quer estejamos no meio da imensidão salgada ou a escassas milhas do destino. Raros foram os desastres e os naufrágios que aconteceram em pleno oceano, a grande maioria deu-se na proximidade das costas, pois o maior perigo para uma embarcação, construída para navegar, é a terra e não a água; a bordo de um barco, os maiores problemas de uma grande travessia não acontecem com o material mas sim com as tripulações. Muitos desastres marítimos da história, que não os das guerras, ficaram a dever-se à incapacidade das tripulações para enfrentarem a situação.

O CHIC é um veleiro sólido, rápido e seguro; com 18 anos de idade, regressa ao ponto de partida desta longa viagem com algumas mazelas bem visíveis e outras mais camufladas. Foram muitas as milhas de oceano, mas também muitas as entradas por rios e igarapés, muitas as acostagens em locais difíceis, impróprios para uma embarcação deste género. O casco perdeu muita pintura, os frisos de protecção foram arrancados das suas calhas, os balaústres torcidos, até a poeira de ferro do porto de Itaqui se incrustou no casco, colorindo-o da cor da ferrugem. Quase todos os estais e brandais que sustentam o mastro têm que ser substituídos, os encaixes de fixação dos baixos brandais e do estai de popa terão que ser inteiramente refeitos. As polias do topo do mastro deverão ser substituídas, assim como os cabos das adrissas. A base do mastro necessita um reforço com luva embutida de alumínio, porque apresenta placas de corrosão. Todo o circuito eléctrico terá que ser refeito, o frigorífico deixou de funcionar nas Caraíbas, a bomba de água salgada rendeu a alma nas Bermudas, o forno eléctrico apagou-se nos Açores, a água quente deixou de funcionar com o circuito eléctrico de 220 volts e funciona apenas com o motor em marcha. O comando exterior do motor pifou antes de chegar a Lisboa, a bomba de porão já não dispara com o mecanismo automático, metade dos postigos deixaram de ser estanques. Aqui mesmo, em Peniche, avariou-se o mecanismo de controle de pressão da bomba de água doce. Tem ainda a tampa do porão de proa que perdeu as suas borrachas de vedação, o piloto automático avariou na costa brasileira, o cabrestante da ancora só funciona manualmente e entra água, quando chove ou quando uma vaga cobre o convés, pela fixação das catracas de bombordo. Também entra água pelos tubos do banheiro de proa e o abastecimento do motor faz-se através de um tubo provisório instalado através do buraco que era do indicador de nível. Pelo caminho ficaram todas as defensas que tínhamos levado à partida de Aveiro, umas rebentadas outras roubadas, mas sempre fomos conseguindo outras; o mesmo aconteceu com os cabos de atracagem. A tempestade tropical arrancou-nos antenas, bóias e material de convés. As avarias mais graves que aconteceram ao longo da nossa rota foram as do leme, que reparámos em viagem. Nada disto nos impediu de chegar até aqui e havemos de alcançar o nosso destino sem mais prejuízos.

O material de trabalho, bem acomodado e estivado na cabine de estibordo (boreste), cumpriu a sua missão. O ambiente marítimo é muito nocivo para a aparelhagem electrónica e um ano de trabalho desgasta consideravelmente tudo quanto é câmaras fotográficas, material de vídeo e sobretudo os computadores. O que lhes resta de vida será efémero, mas cumpriram. Perdemos um computador devido à usura provocada pelo ambiente marítimo; uma câmara de vídeo avariou em Salvador, mas foi reparada em São Paulo e aguentou o resto da viagem. Cabos de ligação eléctrica, de portas USB e coisas similares têm os terminais corroídos. O material que perdemos foi o que desapareceu nos assaltos de que fomos vítimas. Os livros fizeram a viagem sem sofrerem demasiado com a humidade.

Tudo isto é perfeitamente normal ao longo de uma grande viagem, cujo sucesso depende muito mais do traquejo da tripulação do que da qualidade da embarcação. Dietmar navegou durante 9 anos em solitário a bordo de um veleiro de 8 metros, pelo Mar do Norte e pelo Mediterrâneo, atravessou o Atlântico por duas vezes, cruzou ao longo da costa africana. Eu contabilizei neste regresso do Brasil a minha 14ª travessia do Atlântico e este foi o veleiro mais pequeno que alguma vez comandei. Nunca, mesmo nos momentos mais difíceis da tempestade tropical e dos temporais do regresso, quando tivemos as avarias graves do leme, nunca estivemos em situação de perigo nem o pânico se instalou a bordo. Na viagem de ida como na de regresso tínhamos como companheiros dois tripulantes sem grande experiência oceânica. Cumpriram as suas tarefas a bordo, melhorando cada dia o seu desempenho e aprendendo durante estes meses de travessia muitos segredos da sobrevivência no oceano.

Porém, o mais importante desta viagem não foi o percurso marítimo, nem a arte de velejar, nem a história de uma rota equivalente a meia volta ao mundo; não foram essas proezas que alimentaram este Diário de Bordo desde há um ano. Fiel aos objectivos traçados nas primeiras linhas deste texto, este Diário vai terminar como começou: exercício de comunicação, partilha de emoções, divulgação de valores próprios à nossa identidade, descoberta da dimensão global das ideias do padre António Vieira, uma reflexão sobre cidadania no contexto da realidade cultural portuguesa, sem esconder as verdades nem camuflar as frustrações que rechearam o nosso quotidiano ao longo do espaço e do tempo desta viagem muito difícil e por demais complicada.

No mesmo dia em que chegámos a esta última escala do roteiro de Vieira, os meios de comunicação social anunciavam que o nível de confiança dos portugueses estava no ponto mais baixo de sempre; hoje, neste mesmo momento em que escrevo estas linhas, a rádio estende-se em comentários sobre esta mazela crónica. Tais inquéritos e avaliações não se faziam nem se comunicavam no tempo de Vieira, mas ele estava consciente como ninguém das misérias que afectavam o reino, muito similares às de hoje. Em vez de se lamentar e de as contemplar ele teve a coragem de propor aos seus compatriotas o projecto de um espaço global ao jeito e ao gosto dos portugueses, na qualidade dos quais ele acreditava, até porque a história do futuro de Portugal estava escrita nos textos dos profetas: o Quinto Império.

 

2 de Março de 2008, Peniche.

Ontem foi dia de pagar promessa. Cumpridas as obrigações com os nossos anfitriões rumámos por via terrestre até Nazaré, ao encontro das raízes culturais e religiosas do maior evento de Belém do Pará, o Círio de Nazaré (Diário, 13 e 14 de Outubro), como prometido na cidade das mangueiras aos nossos compatriotas do Grémio Literário e Recreativo Português. Foi nosso guia José Manuel Lourenço, director do jornal quinzenal Correio Popular, nascido em Angola com muitos anos de Brasil. Antes passámos pelo santuário de Nossa Senhora dos Remédios, um antiquíssimo lugar de peregrinação, do tempo em que Peniche era uma ilha, nos primórdios da nacionalidade. Chamavam-se os “círios”, os movimentos de peregrinos que se deslocavam até aos locais onde o imaginário colectivo tinha criado enredos de devoção. Numa gruta cavada nos pedregulhos do Cabo Carvoeiro apareceu uma imagem milagrosa de Nossa Senhora dos Remédios, à volta da qual, ao longo dos anos, se foram acrescentando paredes, enfeitadas com azulejos e adornos de talha dourada, graças à generosidade dos peregrinos.

Mais antiga é a história da Senhora da Nazaré, uma imagem da mãe de Jesus, saciando com o seu seio generoso a boca gulosa do bebé Salvador, também ela encontrada numa gruta por um monge de nome Frei Romano, que a deu a conhecer ao rei visigodo Rodrigo, vencido pelos exércitos muçulmanos na batalha de Guadalete em 711, chegado a estas paragens foragido e arrependido dos seus pecados. O almirante da frota do primeiro rei de Portugal, D. Fuas Roupinho, terá sido milagrosamente salvo da morte pela Senhora da Nazaré, quando uma caçada ao veado se transformou numa armadilha diabólica para o matar. Na pederneira onde o seu cavalo firmou os posteriores o nobre personagem mandou construir uma ermida que logo se transformou num destino de “círio”, por muitos e muitos anos. No século XVII a devoção à Senhora da Nazaré tinha-se estendido por todo o país e perto da ermida original elevava-se uma igreja que daria lugar, no século XVIII a um imponente templo religioso.

A cidade de Nossa Senhora de Belém, ou simplesmente “cidade do Pará”, como lhe chamava Vieira, teve como padroeira desde a sua fundação, em 1616, Nossa Senhora da Nazaré. A procissão do Círio começou no final do século XVIII e transformou-se ao longo dos anos no mais espectacular evento cultural e religioso de todo o Brasil. O pudor dos crentes afeiçoou a imagem às exigências da mentalidade dos peregrinos e o bebé deixou de mamar para olhar para os devotos com um ar saciado e sereno de menino mais crescido. É essa imagem, com seu manto de seda bordado cada ano do mais precioso fio de ouro entremeado de pedrarias, que preside ao Círio da cidade de Belém. Na Nazaré encontramos ainda as duas imagens, as da amamentação anteriores ao século XV e as posteriores, com o menino bem acordado, olhando com ar interessado para quem o venera.

Depois veio a surpresa: a nossa visita demorou cerca de três horas, tempo mais que suficiente para que a viatura, estacionada a escassos metros da praça principal e da grande igreja de Nossa Senhora da Nazaré, fosse arrombada e esvaziada de tudo quanto lá dentro tinha algum valor. O maior de todos os prejuízos foi o computador com todo o seu conteúdo armazenado, valor irreparável e incalculável. Na esquadra da polícia, o oficial de serviço nem sequer nos deixou a mínima esperança de recuperação de tão precioso instrumento de trabalho: são bandos organizados com métodos sofisticados de intervenção, contra os quais a polícia não dispõe de meios. Dia de Sábado com temperatura agradável, os primeiros visitantes acorrem aos locais turísticos e os predadores seguem com sucesso os trilhos da caça.

Tínhamos sido assaltados por três vezes durante a nossa viagem, em países onde normalmente existem assaltos, o que não nos acomoda com a ideia de sermos roubados; por isso tomamos sempre maiores precauções, sem todavia conseguirmos escapar às técnicas ousadas dos assaltantes. Consumado o acto apenas nos consolamos com a ideia de nos terem deixado a vida, para podermos partilhar a frustração das outras vítimas. Mas sermos assaltados ao chegar a casa, num país de brandos costumes e de gente piedosa, não dá para acreditar. Talvez as coisas tenham mudado tanto durante a nossa ausência que tenhamos que nos reciclar para podermos viver por mais algum tempo neste país anacrónico, onde a globalização do crime chegou antes da alfabetização global. Por várias ocasiões já tinha pensado nisso, não a propósito dos assaltos mas da postura ética de alguns dos nossos interlocutores. Depois de termos vivido um ano a bordo de um veleiro, vamos ter que rever a nossa postura e a nossa identidade, como qualquer peregrino depois de uma longa caminhada, de um sofrido círio.

Cumprimos a nossa promessa sem pedirmos nenhum milagre, mas bem precisaríamos que a Senhora da Nazaré nos fizesse o que fez por D. Fuas: livrar-nos da malvadez do diabo.

 

3 de Março de 2008, Peniche.

Quando eu era pequeno, criança que calçava tamancos para ir à escola, havia muitos pobres que pediam esmola palas casas. Vinham uma vez por semana, eram de todas as idades, velhos agarrados a um cajado tosco, cegos e estropiados, jovens mães adolescentes com bebés ao colo e irmãos mais novos pela mão, mulheres idosas derreadas pelo peso de uma existência precária; tinham dia certo para entrar pelos pátios das casas e rezar nos quinteiros por alma de quem de lá já tinha zarpado para sempre. A primeira vez que eu vi os seios de uma mulher foi quando uma jovem mãe, desesperada, com um bebé ao colo, para despertar a piedade, abriu a blusa e mostrou os seios vazios, sem leite, caídos como folhas murchas sobre as costelas salientes.

O espectáculo era mais triste de Inverno, quando eles tremiam de frio e de fome e eu me aconchegava num cesto de caruma colado à lareira, alimentando o lume e a fumaça que curava os enchidos, com achas verdes e gravetos secos. Os pobres rezavam lá fora e muitas vezes a minha mãe, em maré de mau génio, deixava-me o aviso: “Não abras a porta”. Mas os pobres rezavam ainda mais alto porque sabiam que havia gente em casa. Minha avó, depois de enviuvar, nunca mais teve alegria, nunca mais cantou nem falou com os vizinhos, nunca mais rezou o terço em voz alta; vivia num mundo secreto que era só dela, dentro do espaço fechado da casa de lavoura, cuidando das couves da horta, do seu poleiro, das suas coelhas parideiras. Sentava-se num mocho centenário ao pé da lareira, e fiava lã para o tear da minha mãe.

“Não abras a porta”, insistia a mãe. A avó olhava para mim e levantava-se. Abria a caixa onde eu mergulhava as duas mãos e ela, com a sua mão grande de mulher lavradeira, metia dois punhados de feijão no avental. Os pobres já rezavam muito alto quando se abria a porta e o rosto dela iluminava-se de um fulgor de juventude, com seus caracóis de cabelos brancos escapando do lenço negro, seus lábios finos estremecendo como se voltassem a cantar, seus olhos maliciosos brilhando de tanta bondade. Quando eles saíam pelo pátio apressados, rumo à próxima casa, ajeitando as esmolas nas sacolas, sempre a rezar por almas desconhecidas, contentes das côdeas e dos feijões que lhes aconchegariam o estômago, a minha avó olhava para mim com uma infinita ternura e não dizia nada. Voltava a sentar-se no mocho, enfiava a roca na cintura e o fuso cantava nos seus dedos.

Na minha cabeça de criança pequena calçada de tamancos os pobres de pedir eram seres maravilhosos que expiavam os pecados de todos os homens e deixavam no quintal, debaixo da parreira, aquela fragrância de santidade que iluminava o rosto triste da avó e lhe devolvia naqueles momentos sublimes a beleza de uma perpétua juventude. Anos mais tarde eu voltei a casa vindo de países distantes onde tinha encontrado aconchego enquanto crescia sem tino. A avó tinha falecido e os pobres não eram os mesmos, já não rezavam, não queriam mais pão nem feijões, pediam dinheiro. Não eram os mesmos pobres dos meus tempos de criança, eram apenas mendigos que não inspiravam piedade e deixavam atrás deles o cheiro estranho da revolta que lhes corroía a alma e esvaziava o corpo. Só a fome era a mesma e o frio mais terrível. “Não abras a porta”, acautelava ainda a minha mãe, que herdara aqueles inesquecíveis cabelos brancos. As caixas de milho e feijão estavam vazias, não se lavravam mais as terras nem se cozia pão em casa. Nunca pensei que um dia pudesse ser eu a ter fome, mas aconteceu.

Amanhã, esta viagem pelos caminhos de Vieira, com os seus tormentos e as suas euforias, se o vento e o mar o permitirem, chega ao fim. Cada um de nós, criaturas humanas, terá que acertar contas com o seu destino, mais tarde ou mais cedo: “e quanta gente bem nascida se verá naquele dia mal ressuscitada!” – dizia Vieira do alto do púlpito. Enquanto esperamos o aconchego do derradeiro cais, partilhamos com todos os crentes no Deus de Abraão a esperança numa justiça que não contempla a avaliação dos pequenos percalços dos dias de raiva. Só o Anjo da Justiça, criado antes de todas as demais criaturas para as juntar num só momento e num só espaço no dia da Grande Misericórdia, saberá apontar a rota da efémera eternidade de cada nome e a luz que saciará todas as fomes e todos os desejos.

 

4 de Março de 2008, Peniche.

Há exactamente um ano, estávamos a duas semana da partida e a página deste Diário de Bordo terminava assim: (Vieira) merece também o perigo e o fascínio de um oceano inteiro, há muito descoberto, mas sempre um desafio para os peregrinos do tempo. Chegámos a mais um cais da nossa história de peregrinos da vida, cumprindo os objectivos traçados, por entre perigos e fascínios. O desafio valeu a pena só por termos chegado, contra todas as expectativas e apesar de todas as pedras que a invejosa malvadez dos homens despejou ao longo da nossa rota. Chegamos feridos, vulneráveis, sem festa nem arraial, na intimidade da nossa satisfação que não partilhamos com ninguém. Mais tarde haverá porventura razões para festejar e partilhar outras colheitas, mas agora não, queremos ficar sozinhos, curtindo a nossa humilde e silenciosa vaidade. Foi um oceano inteiro de ventanias, de tempestades violentas, numa travessia invernal que pôs à prova coragem, resistência e traquejo, coisas só nossas, dos nossos medos, das nossas preces, das nossas incertezas. Precisamos de tempo para nos habituarmos de novo a pisar a terra, cheirar-lhe os vícios, medir-lhe a aparente serenidade.

A viagem não terminou, mas este é o derradeiro espaço das andanças Atlânticas de Vieira; o temporal obriga-nos a ficar ao abrigo, as gaivotas refugiaram-se em terra. Em Aveiro, donde largámos, não é ainda tempo do junco em flor mas já nascem os poldros e as andorinhas não vão tardar. As cegonhas e os flamingos ficaram por lá, parece que o Inverno foi suave, os maçaricos catam na lama da maré baixa e as tarambolas na orla dos juncais. Tudo parece como dantes, nesta paisagem melancólica de areias, de lamas e de vento, só nós é que estranhamos a quietude do cais, como se tivéssemos esvaziado dos nossos alforges ambições e paixões, sacudido o pó das alpercatas e adormecido no silêncio da memória atordoada.

Vamos precisar de tempo, Dietmar e eu, para medirmos quanto realmente conseguimos fazer durante este ano sofrido das nossas vidas e os companheiros que partilharam connosco meses de trabalho também. Luís esteve a bordo 7 meses, João e Rafael 4 meses, Jaime e Henrique 3 meses. Quetzal acompanhou-nos durante 7 meses e já se despediu da vida para farejar os canteiros das estrelas. Amanhã vai nascer o primeiro dia do resto das nossas vidas.

Pelo longo roteiro desta viagem encontrámos paisagens deslumbrantes, no mar como na terra, florestas e desertos, bichos de todas as espécies, raças e cores, grandes cidades e aldeias remotas, e sobretudo seres humanos maravilhosos com quem partilhámos as nossas paixões e o nosso vinho. Nos momentos mais difíceis apareceram como por milagre os que aliviaram o nosso sofrimento e contribuíram para que a viagem chegasse ao fim. Valeu a pena percorrer estes espaços de um dos maiores portugueses de sempre, para melhor entendermos a sua mensagem, para dar a conhecer a todos quantos hoje se apaixonam pela nossa língua a grandeza inimitável do seu poder de crítica construtiva, do seu patriotismo, da sua visão optimista de um futuro grandioso para todos os que falam português, o que tarda a acontecer.

Antes de tudo Vieira foi um missionário, um crente em Deus que levou a todos os terreiros dos seus passos a mensagem inequívoca da sua fé, da sua visão cristã do mundo e da história, sem se confinar nos limites do tradicionalismo e do fanatismo que caracterizavam o pensamento religioso da época no nosso país. Visionário, patriota e profeta, ele apontou para um mundo novo cheio de promessas e de uma dimensão jamais imaginada, guardando para Portugal um lugar à parte na globalização que só ele vislumbrava, prometida e profetizada.

O discurso de Vieira é de uma actualidade contundente: os mesmos pecados do seu tempo corroem a sociedade dos nossos dias, tolhendo as suas capacidades de enfrentar a liderança do futuro. Falta aos portugueses e brasileiros de hoje, enquanto colectividades diferenciadas do resto das culturas do planeta, um perfil produtivo e um perfil ético próprios para construírem uma cidadania, sem abdicarem daquilo que faz deles uma cultura original e única pela suas raízes genéticas, pela variedade dos valores culturais assimilados, pelo tremendo poder de criatividade, pelo futuro que só os génios conseguem enxergar, sem abdicarem da sua identidade. Falta-nos hoje um pregador como Vieira. Nasceu há 400 anos e no primeiro sermão que pregou na Europa, a 1 de Janeiro de 1642, na capela real, prometia ao seu Rei muito mais do que a continuidade de um trono restaurado: um Império, por vontade de Deus. Foram muitas as pedras que teve pelo seu caminho, mas nunca abdicou, nunca desistiu de apontar aos seus compatriotas o rumo certo, oculto mas traçado nos textos dos profetas.

 

31 de Março de 2008, Ria de Aveiro.

A única carta que o padre António Vieira escreveu a uma comunidade judaica foi a que enviou aos judeus de Ruão a 20 de Abril de 1646, 2 dias depois de ter chegado a Haia, na sua 3ª grande viagem, a primeira ao serviço de D. João IV. Encontrara-se pessoalmente com a comunidade judaica daquela cidade semanas antes, solicitando créditos para comprar navios na Holanda.

Três anos antes ele tinha apresentado ao rei um texto de sua lavra em que defendia o regresso ao reino dos judeus portugueses da diáspora, como medida para acudir ao miserável estado do reino, texto que acabou nas mãos do Tribunal do Santo Ofício. O primeiro objectivo das propostas de Vieira era de ordem prática: o reino precisava do dinheiro e do dinamismo produtivo da comunidade judaica, que abandonara o país por causa das perseguições. O outro objectivo era de ordem ideológica: ele defendia a tolerância religiosa, sem abandonar a sua convicção de que a verdadeira e única religião era o catolicismo romano, à qual no futuro todos os homens adeririam. A sinceridade do padre não deixa dúvidas: “não é justo faça divisões a pena onde não reconhece diferença o coração”. E acrescenta: “até agora o persuadia (ao rei) com argumentos do discurso e daqui por diante o poderei fazer com experiências de vista”. Também reconhece que não será tarefa fácil, mas considera-se capaz de a levar a cabo: “As coisas grandes não se acabam de repente; hão mister de tempo e todas têm seu tempo. O desta parece que é chegado”… O diplomata confiava no rei que servia e no apoio do soberano às suas ideias; sempre foi um optimista, mas media mal a força dos poderes clandestinos que minavam o reino. No dia 15 de Dezembro de 1647, num auto-da-fé em Lisboa foi queimado vivo um cristão-novo chamado José de Lis (Isaac de Castro), negociante muito conhecido em Antuérpia, Amsterdão e Hamburgo, membro da comunidade judaica de Ruão. Vieira estava na Holanda pela segunda vez, metido em negócios complicados e quando soube do acontecido e da prisão de outros cristãos-novos em Portugal ficou desolado e furioso.

Naquele mesmo ano de 1646, o rabino da sinagoga da cidade de Recife, Kahal zur Israel (O rochedo de Israel), Isaac Aboab da Fonseca, publicava um livro de poemas bíblicos intitulado Memorial aos Milagres de Deus. Nascido em Castro Daire em 1605, refugiou-se com a família em Amsterdão com cerca de 8 anos e viajou para o Brasil em 1642, no tempo de João Maurício de Nassau. Um primeiro texto de Vieira foi traduzido para flamengo em 1646, o Sermão dos Bons Anos, pregado na capela real a 1 de Janeiro de 1642, onde ele se desliga definitivamente das ideias sebastianistas que um dia o seduziram e formula a sua primeira visão da história do futuro do reino de Portugal, “vencendo e sujeitando todas as partes do mundo a um só império, para todas em uma coroa as meterem gloriosamente debaixo dos pés do sucessor de São Pedro. Assim o contam as profecias”… Conforme às profecias era aquela promessa feita a D. Afonso Henriques, divulgada pelo cronista Duarte Galvão. Nascia assim a grande ambição de toda a vida de Vieira: interpretar os profetas para escrever a História do Futuro, tarefa que iniciou em 1649, mas que nunca levaria a cabo.

Nos seus poemas publicados em Recife em 1646, Isaac da Fonseca comentava um texto do profeta Ezequiel que diz assim: “Eu irei buscar os filhos de Israel dispersos pelas nações onde se refugiaram, juntá-los-ei a todos para trazê-los de volta à sua terra; farei deles uma só nação na terra, sobre os montes de Israel, e haverá um só rei que reinará sobre todos eles. E nunca mais haverá duas nações nem dois reinos no futuro. Não se contaminarão mais com ídolos, nem com abominações, nem com todos os pecados; tirá-los-ei salvos de todos os lugares onde pecaram e purificá-los-ei. Eles voltarão a ser o meu povo e Eu o seu Deus. Um descendente do meu servo David reinará sobre eles e haverá para todos um só pastor; todos observarão as minhas leis, guardarão os meus preceitos e praticarão os mesmos cultos.” (Ezequiel, 37, 21-24) Este mesmo texto foi citado e comentado inúmeras vezes por Vieira, até teve que o explicar em detalhe ao tribunal que o condenaria pela defesa dos judeus e da liberdade religiosa.

Quando o amigo do rei estava pela segunda vez na Holanda, o estado do reino era ainda mais miserável e complicado do que antes, ao ponto de ser considerada a hipótese de ter que se vender aos holandeses um pedaço dos mais valiosos do domínio português no Brasil, Pernambuco. Vieira encontrou-se por várias vezes em 1648 com o rabino da comunidade judaica de Amsterdão, Manassés Ben Israel, um português nascido na ilha da Madeira com o nome cristão de Manuel Dias Soeiro, também ele autor de um livro de poesias (Livro do Sopro da Vida), mas sobretudo de um outro livro intitulado Esperanças de Israel, onde, baseado nas mesmas profecias comentadas por Vieira e Isaac da Fonseca, ele discorre sobre a história do futuro. Anos mais tarde, em 1659, quando o missionário Vieira escreve, “navegando numa canoa pelo rio das Amazonas”, uma carta de consolação à rainha viúva, intitula essa carta Esperanças de Portugal.

Em 1653 Vieira chegava, contrariado, às missões do Maranhão e Isaac da Fonseca regressava à Holanda no ano seguinte, também contrariado, no momento da rendição dos Holandeses em Pernambuco. Em 1660 o antigo rabino de Recife sucedia a Manassés ben Israel à frente de comunidade judaica de Amsterdão e Vieira era preso e expulso das suas missões no ano seguinte. Isaac da Fonseca morreu em Amsterdão em 1693 com 88 anos, deixando para a posteridade o seu nome ligado à construção, naquela cidade, do mais célebre templo judaico do mundo depois do de Jerusalém, a Sinagoga Portuguesa; Vieira morreu em Salvador da Bahia em 1697 com 89 anos, deixando para a posteridade a mais poderosa visão do futuro que jamais saiu da mente de um génio, a da Globalização. Estes dois líderes carismáticos pisaram os mesmos terreiros, defenderam as mesmas ideias, mas nunca se encontraram.

A comunidade judaica de Ruão é muito antiga; por debaixo do Palácio de Justiça da cidade foi encontrada uma construção do tempo dos Romanos que parece ter sido uma sinagoga ou uma escola hebraica. Ao longo dos séculos a comunidade teve os seus altos e baixos, o pior momento terá sido o da expulsão dos judeus de França em 1394, por Carlos VI, o rei bem-amado que enlouqueceu, castigo de Deus pela decisão iníqua. Nos séculos XVI e XVII a França foi um dos destinos dos judeus portugueses expulsos do reino ou foragidos das perseguições da Inquisição: Bordéus, Tolosa e Ruão foram os principais destinos. No século XX, os judeus de Ruão foram deportados durante a ocupação alemã e a maioria deles nunca mais voltou. Depois da independência de Marrocos, Tunísia e Argélia, nos anos 50 e 60, muitos judeus sefarditas, originários de Espanha e Portugal, imigraram para França, onde fizeram crescer as comunidades locais, entre as quais a de Ruão. Os judeus de origem portuguesa ainda hoje são recordados pela comunidade judaica local com carinho e admiração. Existe na cidade uma Rua dos Judeus, próxima do Palácio de Justiça e uma Sinagoga moderna situada na Rue des Bons Enfants. Do tempo da passagem de Vieira não resta nada.

 

GESTÃO: INSTITUTO TROPICAL